COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

OVERDOSE DE COCAÍNA CAUSOU MORTE DO IRMÃO DE 17 ANOS DE MC GUI

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 25/01/2015

Laudo da perícia da morte do irmão de MC Gui atesta overdose de cocaína
Nove meses depois, exames mostram que Gustavo consumiu drogas em excesso. Os pais se emocionam e dizem não saber do uso de cocaína.




A família de um astro do funk brasileiro foi surpreendida esta semana com o resultado de um laudo oficial da perícia paulista. Esse laudo, ainda inédito, mostra que Gustavo Castanheira, irmão do cantor MC Gui, morreu aos 17 anos de overdose de cocaína.

O pai, a mãe e o MC Gui deram uma entrevista exclusiva ao Fantástico. Eles fazem questão de alertar todo mundo para o perigo das drogas.

Nove meses se passaram desde a morte de Gustavo.

“Fazia tudo junto, ele viajava com a gente. Não tem como. Até hoje, são todos os dias pensando nele”, conta MC Gui, irmão de Gustavo.

“Eu daria tudo, tudo o que a gente ganhou, tudo o que eu conquistei, a carreira do Gui, tudo para ter ele aqui”, diz a mãe de Gustavo e Gui, Claudia Castanheira.

Nesses nove meses, uma pergunta tinha ficado sem resposta até hoje: O que provocou a morte de Gustavo, o irmão de 17 anos do MC Gui, um dos funkeiros mais famosos do Brasil?
Excesso de energéticos? Alguma doença que ninguém desconfiava? Esta semana, a família recebeu o laudo da perícia: Gustavo morreu de overdose de cocaína.

“Quando eu vi escrito no laudo a cocaína, eu sinceramente, entrei em choque. Não dá para acreditar, não”, conta a mãe.

Fantástico: Você sabia que ele usava drogas?
MC Gui: Eu já vi ele usando maconha. Só que eu brigava com ele e ele me obedecia. Tipo, ele jogava fora.
Fantástico: Mas você nunca viu ele usando uma droga mais pesada? Cocaína, por exemplo?
MC Gui: Não.

O laudo afirma: "Gustavo fez uso prévio de cocaína e teve morte súbita em decorrência de insuficiência respiratória aguda". Segundo o exame, ele não tinha bebido nada de álcool.

Mãe: A gente tinha uma desconfiança que havia possibilidade de ele estar envolvido mas não com esse tipo de droga.
Fantástico: E que tipo de mudanças ele teve no comportamento?
Mãe: Chegava em casa meio alterado. Tava meio agressivo nas palavras. O pai já chegou até falar para ele: "Se eu descobrir que você está usando droga, se eu pegar, Gustavo, eu vou te amarrar dentro de casa". Ele chegou a comprar uma corrente e falou que ia amarrar.

O que aconteceu com Gustavo no dia da sua morte? Como foram os últimos momentos desse adolescente, crescido na Zona Leste de São Paulo? Um jovem que, graças ao irmão mais novo, conheceu a fama, o sucesso.

Dezessete de abril do ano passado, uma quinta-feira. Foi a última vez que Giulia viu o namorado Gustavo.

Giulia Moraes: Ele começou a vomitar. A gente disse: "Nossa, Gu. Você está vomitando bastante. Ele: "É, meu, precisa marcar um médico. Vamos marcar um médico".
Fantástico: Você alguma vez percebeu que ele usava drogas?
Giulia: Ele tinha, às vezes, uns comportamentos estranhos mas tipo, de ver assim, nunca vi. Mas a gente meio que desconfiava.

Três dias depois, era domingo de Páscoa. Por volta das 17h, os pais saíram para acompanhar MC Gui em um show. Gustavo, que ajudava na produção do irmão cantor, mentiu dizendo que ia ficar com a namorada.

“Nesse dia, perguntei se ele tava com a chave de casa. Ele pôs a mão no bolso para olhar se tava, na hora que ele puxou, caiu uma trouxinha de maconha no chão. Aí, eu peguei, falei para ele: "Gustavo, você não tem jeito". Ele jurou de pé junto que não era dele. "Você está mentindo para você mesmo. Você não está mentindo pra mim", conta Rogério Alves, pai de Gustavo.

Parte dos parentes de Gustavo estava na casa deste comerciante, um amigo da família, comemorando a Páscoa. O jovem chegou no fim da noite.

“Onde ele tava, ele arrumou uma carona. Aí, ele chegou aqui com um rapaz. Deixou ele aqui. Subiu cumprimentou todo mundo”, lembra o comerciante Luiz Alberto de Brito.

Gustavo estava muito agitado quando chegou na casa do amigo, na Zona Leste de São Paulo, para participar de um jantar da família. Os parentes acreditam que ele pode ter usado drogas durante o dia.

“Falei: “Gustavo. Você tá muito louco, você bebeu, cara?" Ele falou que "Nada, mano. Tô de boa, tô tranquilo". Eu não imaginei droga”, diz o comerciante.

MC Gui e os pais chegaram para o jantar logo depois. Gui ficou na casa do amigo. Já Gustavo foi embora com os pais.

“Pra mim, era embriaguez. Só que os olhos dele estavam diferentes”, lembra a mãe de Gustavo.

Três horas depois, por volta das 4h, ele insistia em sair de casa e voltar para o lugar onde aconteceu o jantar. Um amigo veio buscá-lo. Gustavo passou mal e acabou desmaiando.

Luiz Alberto: Ele começou a sentir enjoo. Ele falou: "Quero vomitar. Estou passando mal". Nessa que ele saiu para vomitar, ele desmaiou. Eu me desesperei. Não voltava. Ele tava querendo puxar ar”.

O amigo e a mãe levaram Gustavo ao hospital:

“Nunca imaginei enterrar meu filho tão cedo. A droga levou meu filho. Levou uma vida, um menino lindo, um menino saudável. Deus foi muito injusto comigo que não me deu a oportunidade de eu ajudar meu filho. Queria muito poder ter ajudado. Tentando, não consegui. Eu não tive esse tempo”, conta emocionada a mãe de meninos.

Na pele do irmão caçula, a prova da amizade e do carinho. O rosto de Gustavo e a música de maior sucesso, justamente a que ele mais gostava.

“Sonhar, nunca desistir, ter fé pois fácil não é nem vai ser”, resume MC Gui.

A polícia informou que a investigação continua. Agora, para saber quem foi o traficante que vendeu drogas para Gustavo.

“Todos os jovens, não faça isso que não vale a pena. Faz a gente sofrer, pai, mãe, família, irmão”, fala muito emocionado o pai do jovem.

MC Gui: Quando eu sinto saudade, eu choro, quieto. Só que eu me seguro.
Fantástico: Você vive num mundo onde a droga tá muito perto.
Mc Gui: Eu me afastei de diversas pessoas que usam drogas.
Fantástico: Que mensagem você quer deixar, Gui?
Mc Gui: Pensamento positivo e jamais se envolver com drogas. Você tem uma vida maravilhosa pela frente. Então, tem que seguir em frente com a cabeça erguida, sempre com os pés no chão.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O SEGREDO DO REI DA COCAÍNA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2356 | 23.Jan.15


A vida do mais violento e poderoso traficante da história, Pablo Escobar, impressiona mesmo mais de duas décadas depois de sua morte. Novo livro, filme e duas séries para televisão revelam faces chocantes de uma personalidade tão doentia quanto sedutora

Ana Weiss






Pablo Escobar se tornou uma das maiores fortunas do planeta no comando da mais poderosa organização criminosa da história da América Latina, o Cartel de Medellín, com a qual controlava 80% da cocaína consumida no planeta. Nos anos 1980, e até sua morte, em 1993, o grupo, sozinho, marcou a taxa de homicídios da cidade de Medellín em 381 mortes para cada 100 mil habitantes. Cerca de 7,5 mil pessoas foram assassinadas ali só em 1991. A mesma cidade – assim como toda a Colômbia, que até a passagem do narcotraficante era conhecida como a terra do café – parou para rever a trajetória de El Patrón na série “Pablo Escobar: o Senhor do Tráfico”, narrativa baseada na biografia escrita pelo jornalista Alonso Salazar J., publicada no Brasil pela Editora Planeta.



Entre os 11 milhões de pessoas que se prostraram em frente à TV no primeiro episódio – transmitido no Brasil pela Globosat –, encontravam-se viúvas, filhos e sobrinhos das vítimas de Escobar. Apesar da acusação de glorificar e até martirizar o homem considerado o maior traficante do mundo pelo DEA (Departamento Estadunidense Antidroga, órgão do Departamento de Justiça dos EUA), a audiência não caiu um ponto sequer entre um episódio e outro. O livro que deu origem à série, fruto de 16 anos de pesquisa de Salazar, explica em alguma medida o fascínio popular pelo anti-herói em seu país: na mesma semana em que derrubava um avião e explodia supermercados e redações de jornais, o capo do narcotráfico mandava construir casas para os moradores das favelas onde buscava seus piores soldados, assassinos de aluguel chamados de sicários. Com seu discurso político, interferiu mais na sociedade colombiana do que os três presidentes pelos quais não se deixou governar. Mudou a lei de extradição e as normas penitenciárias para proteger seu negócio milionário, que jamais deixou de prosperar. As atrocidades que não escondia – tinha uma preferência por explosões, falava que a dinamite era a bomba atômica dos pobres – justificava como ferramenta anti-imperialista. Dizia para os colombianos que vender cocaína para os Estados Unidos era uma maneira de vingar seu povo e defendê-lo da dominação americana. Era amado. Na lápide sobre sua sepultura, a mais visitada em Montesacro, cemitério ao sul de Medellín, lê-se: “Aqui jaz Pablo Escobar Gaviria, um rei sem coroa”. Há um museu em seu nome, santinhos com seu rosto e uma oração para os que querem pedir sua proteção, 21 anos depois de sua morte.


VERSÃO BRASILEIRA
O traficante vai ganhar vida na pele de Wagner Moura,
em série dirigida por José Padilha este ano, no Netflix

Mas a figura excêntrica que posava fantasiada de Pancho Villa e colecionava hipopótamos alimenta uma mitologia que ultrapassa as fronteiras da Colômbia com mais facilidade que a droga que sustentou o seu bem-sucedido projeto de poder. No último Festival de Toronto, no Canadá, outra cinebiografia sobre o traficante foi aplaudida de pé pelo público e pela crítica: “Escobar: Paradise Lost”, protagonizada por um irreparável Benicio del Toro, deve estrear no Brasil ainda este ano. Também neste ano, o Netflix leva ao ar uma nova série sobre a mesma biografia. “Narcos”, com direção de José Padilha, vai mostrar a ascensão e a queda do Rei da Cocaína com Wagner Moura na pele de Escobar.


MERGULHO
O jornalista colombiano Alonso Salazar J. investigou durante 16 anos
a vida de Pablo Escobar. Sua biografia, no Brasil pela Editora Planeta,
serviu de base para a série de sucesso exibida no Brasil pela Globosat

Quando grupos humanistas contestaram a série colombiana, Fidel Cano, diretor do jornal “El Espectador”, que teve o tio assassinado por Escobar, observou que, além do criminoso, a obra baseada na biografia contemplava a voz das vítimas. Para ele, se a sociedade prefere o traficante, há algo mau nela, e não no programa de TV. Pablo Escobar foi morto em fuga, abatido a tiros sobre um telhado pelo Corpo de Elite da Polícia em 2 de dezembro de 1993, quando completou 44 anos. Sua morte causou imensa comoção popular e encerrou a vida da maior empresa criminosa da Colômbia, que jamais, porém, se livrou dos herdeiros, das marcas e, perante o mundo, do estigma do narcoterrorismo.



Fotos: Leonardo Soares/Folhapress; Divulgação

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O PERFIL DE MARCOS ARCHER



Diario do Centro do Mundo Postado em 17 jan 2015


O perfil de Marco Archer por um jornalista que conversou com ele 4 dias na prisão






Nos bons tempos

O reporter Renan Antunes de Oliveira entrevistou Marco Archer em 2005, numa prisão na Indonésia. Abaixo, seu relato:

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira viveu 17 anos em Ipanema, 25 traficando drogas pelo mundo e 11 em cadeias da Indonésia, até morrer fuzilado, aos 53, neste sábado (17), por sentença da Justiça deste país muçulmano.

Durante quatro dias de entrevista em Tangerang, em 2005, ele se abriu para mim: “Sou traficante, traficante e traficante, só traficante”.

Demonstrou até uma ponta de orgulho: “Nunca tive um emprego diferente na vida”. Contou que tomou “todo tipo de droga que existe”.

Naquela hora estava desafiante, parecia acreditar que conseguiria reverter a sentença de morte.

Marco sabia as regras do país quando foi preso no aeroporto da capital Jakarta, em 2003, com 13,4 quilos de cocaína escondidos dentro dos tubos de sua asa delta. Ele morou na ilha indonésia de Bali por 15 anos, falava bem a língua bahasa e sentiu que a parada seria dura.

Tanto sabia que fugiu do flagrante. Mas acabou recapturado 15 dias depois, quando tentava escapar para o Timor do Leste. Foi processado, condenado, se disse arrependido. Pediu clemência através de Lula, Dilma, Anistia Internacional e até do papa Francisco, sem sucesso. O fuzilamento como punição para crimes é apoiado por quase 70% do povo de lá.

Na mídia brasileira, Marco foi alternadamente apresentado como “um garoto carioca” (apesar dos 42 anos no momento da prisão), ou “instrutor de asa delta”, neste caso um hobby transformado na profissão que ele nunca exerceu.

Para Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, o outro brasileiro condenado por tráfico, que espera fuzilamento para fevereiro, companheiro de cela dele em Tangerang, “Marco teve uma vida que merece ser filmada”.

Rodrigo até ofereceu um roteiro sobre o amigo à cineasta curitibana Laurinha Dalcanale, exaltando: “Ele fez coisas extraordinárias, incríveis.”

O repórter pediu um exemplo: “Viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo só no glamour, nunca usou uma arma, o cara é demais.”

Para amigos em liberdade que trabalharam para soltá-lo, o que aconteceu teria sido “apenas um erro” do qual ele estaria arrependido.


Em 2005, logo depois de receber a sentença de morte num tribunal em Jacarta

Na versão mais nobre, seria a tentativa desesperada de obter dinheiro para pagar uma conta de hospital pendurada em Cingapura – Marco estaria preocupado em não deixar o nome sujo naquele país. A conta derivou de uma longa temporada no hospital depois de um acidente de asa delta. Ter sobrevivido deu a ele, segundo os amigos, um incrível sentimento de invulnerabilidade.

Ele jamais se livrou das sequelas. Cheio de pinos nas pernas, andava com dificuldade, o que não o impediu de fugir espetacularmente no aeroporto quando os policiais descobriram cocaína em sua asa delta.

Arriscou tudo ali. Um alerta de bomba reforçara a vigilância no aeroporto. Ele chegou a pensar em largar no aeroporto a cocaína que transportava e ir embora, mas decidiu correr o risco.

Com sua ficha corrida, a campanha pela sua liberdade nunca decolou das redes sociais. A mãe dele, dona Carolina, conseguiu o apoio inicial de Fernando Gabeira, na Câmara Federal, com voto contra de Jair Bolsonaro.

O Itamaraty e a presidência se mexeram cada vez que alguma câmera de TV foi ligada, mesmo sabendo da inutilidade do esforço.

Mesmo aparentemente confiante, ele deixava transparecer que tudo seria inútil, porque falava sempre no passado, em tom resignado: “Não posso me queixar da vida que levei”.

Marco me contou que começou no tráfico ainda na adolescência, diretamente com os cartéis colombianos, levando coca de Medellín para o Rio de Janeiro. Adulto, era um dos capos de Bali, onde conquistou fama de um sujeito carismático e bem humorado.

A paradisíaca Bali é um dos principais mercados de cocaína do mundo graças a turistas ocidentais ricos que vão lá em busca de uma vida hedonista: praias deslumbrantes, droga fácil, farta — e cara.

O quilo da coca nos países produtores, como Peru e Bolívia, custa 1 000 dólares. No Brasil, cerca de 5 000. Em Bali, a mesma coca é negociada a preços que variam entre 20 000 e 90 000 dólares, dependendo da oferta. Numa temporada de escassez, por conta da prisão de vários traficantes, o quilo chegou a 300 000 dólares.

Por ser um dos destinos prediletos de surfistas e praticantes de asa delta, e pela possibilidade de lucros fabulosos, Bali atrai traficantes como Marco. Eles se passam por pessoas em busca de grandes ondas, e costumam carregar o contrabando no interior das pranchas de surf e das asas deltas. Archer foi pego assim. Tinha à mão, sempre que desembarcava nos aeroportos, um álbum de fotos que o mostrava voando, o que de fato fazia.

O homem preso por narcotráfico passou a maior parte da entrevista comigo chapado. O consumo de drogas em Tangerang era uma banalidade.

Pirado, Marco fazia planos mirabolantes – como encomendar de um amigo carioca uma nova asa, para quando saísse da cadeia.

Nos momentos de consciência, mostrava que estava focado na grande batalha: “Vou fazer de tudo para sair vivo desta”.

Marco era um traficante tarimbado: “Nunca fiz nada na vida, exceto viver do tráfico.” Gabava-se de não ter servido ao Exército, nem pagar imposto de renda. Nunca teve talão de cheques e ironizava da única vez numa urna: “Minha mãe me pediu para votar no Fernando Collor”.

A cocaína que ele levava na asa tinha sido comprada em Iquitos, no Peru, por 8 mil dólares o quilo, bancada por um traficante norte-americano, com quem dividiria os lucros se a operação tivesse dado certo: a cotação da época da mercadoria em Bali era de 3,5 milhões de dólares.

Marco me contou, às gargalhadas, sua “épica jornada” com a asa cheia de drogas pelos rios da Amazônia, misturado com inocentes turistas americanos. “Nenhum suspeitou”. Enfim chegou a Manaus, de onde embarcou para Jakarta: “Sair do Brasil foi moleza, nossa fiscalização era uma piada”.


O momento em que ele recebeu, nesta semana, a confirmação da data do fuzilamento

Na chegada, com certeza ele viu no aeroporto indonésio um enorme cartaz avisando: “Hukuman berta bagi pembana narkotik’’, a política nacional de punir severamente o narcotráfico.

“Ora, em todo lugar do mundo existem leis para serem quebradas”, me disse, mostrando sua peculiar maneira de ver as coisas: “Se eu fosse respeitar leis nunca teria vivido o que vivi”.

Ele desafiou o repórter: “Você não faria a mesma coisa pelos 3,5 milhões de dólares”?

Para ele, o dinheiro valia o risco: “A venda em Bali iria me deixar bem de vida para sempre” – na ocasião, ele não falou em contas hospitalares penduradas.

Marco parecia exagerar no número de vezes que cruzou fronteiras pelo mundo como mula de drogas: “Fiz mais de mil gols”. Com o dinheiro fácil manteve apartamentos em Bali, Hawai e Holanda, sempre abertos aos amigos: “Nunca me perguntaram de onde vinha o dinheiro pras nossas baladas”.

Marco guardava na cadeia uma pasta preta com fotos de lindas mulheres, carrões e dos apartamentos luxuosos, que seriam aqueles onde ele supostamente teria vivido no auge da carreira de traficante.

Num de seus giros pelo mundo ele fez um cursinho de chef na Suíça, o que foi de utilidade em Tangerang. Às vezes, cozinhava para o comandante da cadeia, em troca de regalias.

Eu o vi servindo salmão, arroz à piemontesa e leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos era Dênis, um ex-preso tornado amigão, que trazia os suprimentos fresquinhos do supermercado Hypermart.

Marco queria contar como era esta vida “fantástica” e se preparou para botar um diário na internet. Queria contratar um videomaker para acompanhar seus dias. Negociava exclusividade na cobertura jornalística, queria escrever um livro com sua experiência – o que mais tarde aconteceu, pela pena de um jornalista de São Paulo. Um amigo prepara um documentário em vídeo para eternizá-lo.

Foi um dos personagens de destaque de um bestseller da jornalista australiana Kathryn Bonella sobre a vida glamurosa dos traficantes em Bali — orgias, modelos ávidas por festas e drogas depois de sessões de fotos, mansões cinematográficas.

Diplomatas se mexeram nos bastidores para tentar comprar uma saída honrosa para Marco. Usaram desde a ajuda brasileira às vítimas do tsunami até oferta de incremento no comércio, sem sucesso. Os indonésios fecharam o balcão de negócios.


As execuções são assim

O assessor internacional de Dilma, Marco Aurélio Garcia, disse que o fuzilamento deixa “uma sombra” nas relações bilaterais, mas na lateral deles o pessoal não tá nem aí.

A mãe dele, dona Carolina, funcionária pública estadual no Rio, se empenhou enquanto deu para livrar o ‘garotão’ da enrascada, até morrer de câncer, em 2010.

As visitas dela em Tangerang eram uma festa para o staff da prisão, pra quem dava dinheiro e presentes, na tentativa de aliviar a barra para o filhão.

Com este empurrão da mamãe Marco reinou em Tangerang, nos primeiros anos – até ser transferido para outras cadeias, à espera da execução.

Eu o vi sendo atendido por presos pobres que lhe serviam de garçons, pedicures, faxineiros. Sua cela tinha TV, vídeo, som, ventilador, bonsais e, melhor ainda, portas abertas para um jardim onde ele mantinha peixes num laguinho. Quando ia lá, dona Carola dormia na cama do filho.

Marco bebia cerveja geladinha fornecida por chefões locais que estavam noutro pavilhão. Namorava uma bonita presa conhecida por Dragão de Komodo. Como ela vinha da ala feminina, os dois usavam a sala do comandante para se encontrar.


A namorada

A malandragem carioca ajudou enquanto ele teve dinheiro. Ele fazia sua parte esbanjando bom humor. Por todos os relatos de diplomatas, familiares e jornalistas que o viram na cadeia de tempos em tempos, Marco, apelidado Curumim em Ipanema, sempre se mostrou para cima. E mantinha a forma malhando muito.

Para ele, a balada era permanente. Nos últimos anos teve várias mordomias, como celular e até acesso à internet, onde postou algumas cenas.

Um clip dele circulou nos últimos dias – sempre sereno, dizendo-se arrependido, pedindo a segunda chance: “Acho que não mereço ser fuzilado”.

Marco chegou ao último dia de vida com boa aparência, pelo menos conforme as imagens exibidas no Jornal Hoje, da Globo. Mas tinha perdido quase todos os dentes em sua temporada na prisão, como relatou a jornalista e escritora australiana. No Facebook, ela disse guardar boas recordações de Archer, e criticou a “barbárie” do fuzilamento.

Numa gravação por telefone, ele ainda dava conselhos aos mais jovens, avisando que drogas só podem levar à morte ou à prisão.

Sua voz estava firme, parecia esperar um milagre, mesmo faltando apenas 120 minutos pra enfrentar o pelotão de fuzilamento – a se confirmar, deixou esta vida com o bom humor intacto, resignado.

Sabe-se que ele pediu uma garrafa de uísque Chivas Regal na última refeição e que uma tia teria lhe levado um pote de doce-de-leite.

O arrependimento manifestado nas últimas horas pode ser o reflexo de 11 anos encarcerado. Afinal, as pessoas mudam. Ou pode ter sido encenação. Só ele poderia responder.

Para mim, o homem só disse que estava arrependido de uma única coisa: de ter embalado mal a droga, permitindo a descoberta pela polícia no aeroporto.

“Tava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida”, começou, ao relatar seu infortúnio.

Foi assim: no desembarque em Jakarta, meteu o equipamento no raio x. A asa dele tinha cinco tubos, três de alumínio e dois de carbono. Este é mais rijo e impermeável aos raios: “Meu mundo caiu por causa de um guardinha desgraçado”, reclamou.

“O cara perguntou ‘por que a foto do tubo saía preta’? Eu respondi que era da natureza do carbono. Aí ele puxou um canivete, bateu no alumínio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom”.

O som revelou que o tubo estava carregado, encerrando a bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotráfico.

Marco ainda conseguiu dar um drible nos guardas. Enquanto eles buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico táxi e sumiu. Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquipélago indonésio passou sua última noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok, a poucas braçadas de mar da liberdade.

Acordou cercado por vários policiais, de armas apontadas. Suplicou em bahasa que tivessem misericórdia dele.

No sábado, enfrentou pela última vez a mesma polícia, mas desta vez o pessoal estava cumprindo ordens de atirar para matar.

Foi o fim do Curumim.

QUEM FOI MARCO ARCHER?

 

Gilberto Jasper



Um carioca, com o apelido chinfrim de Curumim. Ele cresceu classe média na Ipanema dos ricos.

Queria ser um deles. Em 80, aos 17 anos, foi à Colômbia disputar um campeonato de asa delta.

Voltou campeão, mas mordido pela mosca azul do narcotráfico: sacou como ganhar dinheiro fácil.

“Alguém no hotel me deu uma caixa de fósforos com cocaína. Depois da primeira viagem, nunca fiz outra coisa na vida, tenho mais de mil gols”, exagera.

Ele conta que serviu de mula no Hawai, Nova York, Europa toda. “Fazia viagens rentáveis, ficava meses sem trabalhar.”

Na cadeia, Marco passava horas olhando fotos amassadas que guardaava numa imunda pasta preta. São 'recuerdos' de suas viagens, de belas mulheres, de carrões e barcos: “Não posso me queixar da vida que levei”.

Orgulha-se: “Nunca declarei imposto de renda, nem tive talão de cheque, não servi ao Exército. Só votei uma vez na vida. Foi no Collor, amigo da família”.

Com o dinheiro do tráfico, Curumim manteve apartamentos em três continentes, abertos pra patota da asa delta, do surf, da vida boa: “Nunca perguntaram de onde vinha meu dinheiro”.

Marco conta que saiu do Brasil para morar em Bali há 15 anos, “cansado de ver meu irmão (Sérgio) bater na minha mãe para obter dela dinheiro pras drogas”. O irmão morreu de overdose em 2000, mas a estas todas ele tinha tido seu infortúnio: em 1997 caiu da asa, sofreu várias fraturas.

Dali pra frente sua atividade de mula de drogas diminuiu, as contas de hospitais cresceram. Ficou quase dois anos sem andar, até conseguir se recuperar. Hoje anda com dificuldades, com as pernas cheias de pinos de metal.

Pra decolar outra vez na vida boa ele preparou aquele que seria seu último golpe, faturar 3 milhões e 500 mil dólares inundando Bali com cocaína.

Foi ao Peru, pegou 15 quilos com um fornecedor, por uma bagatela, cerca de 8 mil dólares o quilo (dinheiro que ele obteve com um chefão americano, com quem dividiria os lucros da operação).

Marco meteu a droga nos tubos de sua asa delta. Saiu de Iquitos, no Peru, para Manaus, pelos rios da Amazônia. “Eu me misturei com turistas americanos e nunca fui revistado”, gaba-se. De lá embarcou para Jacarta: “Tava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida”.

No desembarque, mete o equipamento no raio x. A asa de Marco tinha cinco tubos, três de alumínio e dois de carbono. Este é mais rijo e impermeável aos raios: “Meu mundo caiu por causa de um guardinha desgraçado”.

Como foi: “O cara perguntou porque a foto do tubo saía preta. Eu respondi que era da natureza do carbono. Aí ele puxou um canivete, bateu no alumínio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom”.
O som revelou que o tubo estava carregado. Foi o fim de uma bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotráfico.

Marco ainda conseguiu dar um desdobre nos guardas. Enquanto buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico táxi e sumiu – ajudado pelo fato de falar fluentemente a língua bahasa.

Estava com tudo pronto para escapar no iate de um amigo milionário, mas aí azar pouco é bobagem.

Um passaporte frio que ele tinha foi queimado por um cúmplice que também fugia da polícia.

Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquipélago indonésio – estava tentando chegar ao Timor do Leste –, passou sua última noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok.

Acordou cercado por um esquadrão policial, armas apontadas. Suplicou em bahasa, tiveram misericórdia dele.

Na cadeia esperando a execução, procurava levar seus dias na malandragem carioca, na maior paz com os carcereiros, sempre fazendo piadas, cozinhando-lhes pratos especiais.
Acabou pro Curumim? “Vou fazer tudo para continuar vivo e sair dessa”. Não deu...




Enviado por mamedes.lima
20 de jan (Há 1 dia)


TRAFICANTE DE LSD ABASTECIA FESTAS RAVES EM PORTO ALEGRE

ZERO HORA 21/01/2015 | 09h29


Cid Martins

Maior apreensão do ano. Jovem é preso com mais de mil doses de LSD em Porto Alegre. Conforme investigação policial, homem distribuía a droga para traficantes, que revendiam em festas rave



Doses vendidas pelo jovem preso chegavam a custar R$ 100 Foto: Polícia Civil / divulgação



Em uma ação que começou na tarde passada e terminou nesta madrugada, agentes do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) prenderam, em Porto Alegre, um estudante de 24 anos com mais de mil doses de LSD. O jovem, morador de Canoas, distribuía as drogas no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, para abastecer traficantes que vendiam os entorpecentes em festas rave na Região Metropolitana. As informações são do blog Caso de Polícia.

— Tem a possibilidade da droga vir da Holanda, e esse jovem tinha LSD suficiente para abastecer, mensalmente, 15 traficantes. É a maior apreensão do ano — disse o delegado Mário Souza, da 1ª Delegacia do Denarc.

As drogas apreendidas continham desenhos de personagens como Garfield e Popeye, e até do físico Albert Einstein — esta última, a mais procurada por ter poder alucinógeno maior do que as outras.

O delegado só vai divulgar o nome do traficante após homologação da prisão em flagrante por parte do Poder Judiciário.



O homem foi atuado por tráfico de drogas e preso. De acordo com a investigação, o traficante vendia apenas em grandes quantidades — no mínimo, cem doses do produto. Uma única dose chegava a custar até R$ 100.

— O LSD é considerado uma droga de difícil apreensão tendo em vista a facilidade de escondê-la. Cito, por exemplo, o esconderijo muito utilizado por traficantes, como este jovem preso: livros — destaca Souza.

INDONÉSIA NEGA CLEMÊNCIA A OUTRO TRAFICANTE BRASILEIRO

ZERO HORA 21/01/2015 | 07h21

Indonésia nega pedido de clemência para Rodrigo Gularte. Data da execução não foi fixada, segundo a chancelaria



Gularte, 42 anos, foi condenado à morte em 2005 por ingressar na Indonésia com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surf Foto: STR / AFP


O brasileiro Rodrigo Gularte, ex-morador de Santa Catarina, deve ser fuzilado na Indonésia por tráfico de drogas, após as autoridades do país asiático negarem o pedido de clemência realizado pelo governo brasileiro, informou nesta terça-feira o Itamaraty.

— O pedido de clemência de Rodrigo Gularte foi negado pelas autoridades indonésias — revelou a chancelaria em Brasília.


Gularte, 42 anos, foi condenado à morte em 2005 por ingressar na Indonésia com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surf. A data da execução não foi fixada, segundo a chancelaria.

No final de semana passado, a Indonésia fuzilou seis condenados por tráfico de drogas, entre eles o brasileiro Marco Archer Cardoso.

Após o fuzilamento, a presidente Dilma Rousseff — que tentou em vão salvar a vida de Marco Archer — chamou para consultas o embaixador brasileiro em Jacarta para manifestar seu repúdio à execução.



Apesar da rejeição do segundo e último pedido de clemência previsto no processo, a defesa de Rodrigo Gularte ainda mantém a esperança de que Jacarta reconsidere sua decisão por razões médicas.

Diagnosticado com esquizofrenia, Gularte poderia evitar a execução com uma transferência para um hospital psiquiátrico, como prevê a lei indonésia.

Clarisse Gularte, mãe de Rodrigo, que visitou o filho em agosto de 2014, contou que ele está "totalmente transformado" e 15 quilos mais magro.

— Reconheço que Rodrigo cometeu um erro, mas não se justifica a pena de morte (...) não foi um crime tão grave. Ele está (preso) há mais de dez anos e acredito que já pagou o suficiente".

*AFP

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A DROGA TIROU A PESSOA QUE EU MAIS AMAVA

TV GLOBO, FANTÁSTICO, Edição do dia 18/01/2015


'A droga tirou a pessoa que eu mais amava', diz irmão de morto no México. Morte do brasileiro Dealberto Júnior foi o desfecho trágico de uma maratona de excessos. O irmão dele estava lá e falou com o Fantástico.





O que era pra ser uma viagem de festa, praia e curtição, num paraíso à beira-mar, virou um pesadelo. Surtos de paranoia, confusão mental e o fim súbito - a queda acidental do terceiro andar de um prédio. A morte do brasileiro Dealberto Jorge da Silva Júnior, no México, foi o desfecho trágico de uma maratona de excessos. O irmão do Dealberto estava junto nessas noitadas sem limites. Ele falou com exclusividade ao Fantástico. Um desabafo sobre os sentimentos que o acompanharam na triste volta ao Brasil: a dor e o arrependimento.

“A droga acabou com a minha vida, a droga tirou a pessoa que eu mais amava no mundo, que é o meu irmão”, diz Fernando.

Fernando Luís da Silva, irmão do empresário encontrado morto no México, só voltou para o Brasil na última quinta-feira (15). Ele aceitou dar uma entrevista exclusiva para o Fantástico na casa do advogado da família, em Jaraguá do Sul. Pela primeira vez, Fernando falou sobre a morte trágica do irmão Dealberto, que tinha 36 anos.

“A pessoa que eu mais amei na minha vida. A droga acabou com tudo. Sempre foi meu melhor amigo, meu parceiro, meu sócio. Tudo pra mim. Eu tenho um pai e uma mãe que não mereciam estar passando por isso”, lamenta.

Dealberto morreu na noite do sábado, dia 10, em Playa del Carmen, um balneário mexicano. O corpo foi encontrado na escadaria de um prédio de três andares.

Primeiro, veio a dúvida sobre as circunstâncias da morte: Dealberto caiu, se jogou ou foi empurrado? Depois, seguiram-se versões que davam conta de uma perseguição: traficantes internacionais querendo se vingar dos irmãos.

Hoje, Fernando admite que tudo não passou de alucinação causada pelo consumo de drogas.

Fantástico: Você acredita que sofreu algum tipo de perseguição?
Fernando: Não, de forma alguma. De forma alguma. A queda do meu irmão, com certeza, foi acidental, com certeza, acidental. Consumi alguma coisa que eu acreditava que seria o ecstasy. Eu posso contar nos dedos quantas vezes eu usei este tipo de coisa.
Fantástico: Quantas vezes?
Fernando: Eu acredito que cinco, seis, no máximo. Nunca fui uma pessoa de estar envolvida com drogas. Eu senti medo, eu senti pavor, eu senti que tudo que eu fazia as pessoas estavam me olhando, as pessoas estavam tentando me ferir de alguma coisa.

O ano de 2015 deveria ter começado muito bem para os irmãos. Tinham ido para o México para uma festa de casamento de amigos brasileiros, em outro balneário, Cancun.

Depois da festa, Fernando e Dealberto foram para Playa del Carmen, curtir mais uns dias de férias com outros amigos. No hotel, conheceram a russa Ekaterina Vasileva, que chegou a ser apontada como o suposto elo entre os irmãos e mafiosos e traficantes internacionais.

“Tudo aquilo que a gente estava vivendo não era real. Era uma paranoia, uma loucura, era um momento de euforia, de transtorno”, conta Fernando.

Vinte e quatro horas antes da morte de Dealberto, o grupo saiu para uma noitada de bebida e drogas em pelo menos duas boates.

Segundo o depoimento de Fernando à polícia mexicana, ele e o irmão passaram a sentir que estavam sendo perseguidos. Se separaram do grupo e perambularam desesperadamente pelas ruas de Playa del Carmen.

Fernando conta à repórter Kiria Meurer a versão dele dos últimos instantes vividos com Dealberto.

Fernando: A gente entrou em um condomínio e começou a correr, correr, correr, pulamos cercas, pulamos grades, pulamos um monte de obstáculos que a gente imaginava que precisava passar por aquilo ali. Chegou um ponto que eu não aguentava mais, eu estava muito cansado e eu não sabia mais o que fazer.
Fantástico: Por quanto tempo vocês correram e fugiram?
Fernando: Horas, horas e horas. E aí eu cheguei para ele e falei: ‘irmão, eu não aguento mais, eu não consigo mais, eu não tenho mais força. Eu vou ficar aqui onde eu estou e eu vou rezar e pedir a Deus para que isso acabe e me tire daqui’.

Fernando ficou por ali, atordoado na rua, enquanto Dealberto subia no prédio. “Foi onde então passou alguns instantes e ouvi muito barulho, sirene, polícia, e aí eu pensei que poderia ter acontecido alguma coisa com ele”, ele lembra.

Assustado, em vez de ir até o irmão, Fernando acabou fugindo.

Fantástico: Depois da morte do seu irmão, você passou dois dias sem se comunicar com a sua família. Por quê?
Fernando: Porque eu ainda estava fugindo. Eu estava desesperado. Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Foram os piores momentos da minha vida. Foram os piores dias da minha vida.

Passado o desespero, ele retomou o contato com a família. Queria ajuda para voltar ao Brasil.

“Eu só peço perdão a todos e, principalmente, a Deus. Porque eu jamais queria que isso acontecesse com o meu irmão, jamais”, diz Fernando.

Em Playa del Carmen, o Fantástico foi a uma das boates em que os irmãos estiveram e consumiram o que Fernando diz ter sido ecstasy, uma droga normalmente associada a excitação. Em janeiro, a cidade sedia um festival de música eletrônica, que atrai jovens do mundo inteiro. Alguns convidados cheiram cocaína e consomem outras drogas na frente de todo mundo.

Às 3h25 da madrugada, em um espaço não tão grande, traficantes oferecem drogas livremente no festival. Na porta do banheiro, um homem afirma que tem ecstasy e cocaína para vender. Outro diz que dá um desconto para quem paga em pesos, de 300, o ecstasy sai por 250 a unidade.

Os seguranças fazem vista grossa. É como se o tráfico fizesse parte da festa. Alterada, uma turista canadense diz que na cidade tem muita droga e que experimentou há pouco tempo. Ela conta que já esteve no local quatro vezes. E que com certeza vai voltar.

Para Armando García Torres, procurador que investigou a morte de Dealberto, o que aconteceu com o brasileiro foi uma tragédia que não reflete a realidade da região. Ele diz que a polícia monta o que ele chama de "cinturões de segurança" para que esse tipo de evento seja controlado.

Como se viu na festa e até nos bonés que fazem apologia ao consumo e são vendidos na rua, o perigo depende do comportamento de cada um.

“A gente imaginou que seria a festa mais legal das nossas vidas e foi a festa que tirou a vida do meu irmão. Eu gostaria de dizer a todas as pessoas que estão assistindo neste momento: cuidem de seus filhos, repreendam, se necessário, vejam quem são as amizades que estão em volta deles e, por favor, não deixe isso acontecer com a família de vocês”, diz Fernando.