COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sábado, 23 de agosto de 2014

MUDANÇA QUE VALE A PENA


ZERO HORA 23 de agosto de 2014 | N° 17900


LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA*


Esta reflexão vale especialmente para o leitor que ainda fuma. Não falarei de problemas da saúde por serem mais do que conhecidos. São 6 milhões de mortes anualmente, no mundo, devido a doenças relacionadas ao tabaco, particularmente do coração, das artérias – sobretudo os derrames cerebrais, dos pulmões e o câncer. Fumar aumenta 30 vezes a chance de ter câncer de pulmão. Um em cada cinco fumantes tem enfisema pulmonar. Os danos são muitos, culminando com a perda de mais de 10 anos de vida e da qualidade de vida. A propósito, você conhece alguém que se arrependeu de parar de fumar? Chico Anysio declarou não se arrepender de nada que fez na vida a não ser ter fumado.

Não chamarei atenção para os prejuízos profissionais. As empresas sabem que fumantes representam perda de produtividade, maior absenteísmo e menor preferência dos clientes, na sua maioria não fumantes.

Nem lembrarei seu desafio diário, pois sabe que faz mal, quer parar de fumar, mas não consegue tomar esta decisão. E sabe por quê? Porque a dependência o controla e dificulta sua mudança de comportamento. Se admitisse ter uma doença, como acontece com quem tem pneumonia ou pressão alta, aceitaria procurar ajuda e fazer um tratamento.

Não insistirei muito com você, pois costuma fugir desta abordagem. Talvez, nem esteja mais me lendo. Evitarei falar da sua autoestima, corroída pela dependência que só trará prejuízos e danos. Nem vou lembrá-lo do seu convívio social, prejudicado por não mais poder fumar nos ambientes fechados. Contenção e constrangimento acontecem no seu dia a dia.

Vou falar, sim, dos seus maiores valores. Da sua vida, dos seus entes queridos e dos seus sonhos. Seus planos poderão ser prejudicados, perdidos ou simplesmente nunca se realizar. E, convenhamos, em troca de quê?

Por favor, pare, pense em você, considere as pessoas que ama e não quer ver sofrer, esqueça a mídia e as pressões, use apenas a sua cabeça de maneira independente, inteligente e objetiva. Seja egoísta ao extremo para com sua saúde e tome imediatamente a decisão que será um marco na sua vida e, talvez, sua salvação!

*Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

TRAFICANTE DE DROGAS SINTÉTICAS EM POA

DIÁRIO GAÚCHO 18/08/2014 | 08h58

Preso um dos principais traficantes de drogas sintéticas da Capital. Apreensão de material para fazer comprimidos de ecstasy é a maior realizada no Estado



Foto: Denarc / Divulgação


O Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) prendeu um homem apontado como um dos maiores traficantes de drogas sintéticas de Porto Alegre. Na ação da 4ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico, os policiais apreenderam 102g de metilenodioximetanfetamina (MDMA), material para fazer comprimidos de ecstasy, um quilo de maconha e um Celta.

A prisão por tráfico de drogas do homem de 27 anos, cujo nome não foi divulgado, ocorreu na madrugada de sábado, na Zona Norte, após um dia inteiro de campana. O homem retornava de uma viagem a Florianópolis (SC).


Conforme o delegado Cleomar Marangoni, essa foi a maior apreensão da droga no Estado:

— A quantidade do material apreendido é suficiente para a produção de cerca de 3,5 mil comprimidos de ecstasy. Também pode ser vendido puro, em festas de música eletrônica, por até R$ 400 o grama.

O diretor da Divisão de Investigações do Narcotráfico (Dinarc), delegado Cléber dos Santos Lima, diz que as investigações iniciaram há dois meses.

— O homem é um dos maiores traficantes de drogas sintéticas da capital gaúcha. Estávamos tentando pegá-lo com o entorpecente e, neste final de semana, conseguimos — conta Lima.

Após autuação em flagrante, ele foi conduzido ao Presídio Central de Porto Alegre.

sábado, 9 de agosto de 2014

PACIENTE COLOCOU FOGO EM HOSPITAL GERAL

ZERO HORA 07/08/2014 | 10h30

Paciente colocou fogo em hospital de São Francisco de Assis. Instituição confirmou que homem que estava internado em leito do SUS usou isqueiro para atear fogo

por Pâmela Rubim Matge


Foto: SBR Tiradentes / Divulgação


A direção do Hospital Caridade Santo Antônio, de São Francisco de Assis, na Região Central, confirmou nesta manhã que foi um paciente o responsável pelo incêndio que queimou um quarto do Sistema Único de Saúde (SUS) no começo desta madrugada. O local foi isolado e aguarda a chegada da perícia.

Conforme a direção, o homem de 41 anos usou um isqueiro para atear fogo nos lençóis da cama onde estava. As chamas se alastraram e atingiram o colchão, a estrutura da cama e as paredes além de provocar a queima da canalização de oxigênio do quarto 32, do leito do SUS.

O paciente estava internado no local. Ele é natural do município e sofreu queimaduras nas pernas, mas passa bem e segue em recuperação no mesmo hospital. Os outros dois pacientes que estavam no quarto não sofreram ferimentos. Já os dois policiais militares, de 30 e 41 anos, que controlaram o fogo foram encaminhados ao Hospital de Caridade de Santa Maria já que inalaram muita fumaça. Eles passam bem.

O quarto queimado está isolado aguardando a chegada de Instituto Geral de Perícias.


N

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

MACONHA: SIM OU NÃO


ZERO HORA 07 de agosto de 2014 | N° 17883


CÉSAR AUGUSTO TRINTA WEBER


Sabemos que a proibição do consumo de drogas lícitas, como o tabaco e o álcool, a menores é pouco eficaz tanto aqui quanto nos Estados Unidos. Assim, acreditar que a proibição da venda da maconha para essa faixa etária impediria o consumo seria pura candura.

Sem consenso, a favor da legalização da maconha há os argumentos do uso medicinal baseado em estudos científicos que sustentam ser o canabidiol – substância química encontrada na maconha –, em determinados quadros clínicos, de boa resposta terapêutica, sobretudo, para doenças neurológicas. Com indicação precisa, em doses terapêuticas adequadas, com o uso controlado e a devida comprovação dos benefícios frente aos riscos, tudo indica ser justificável a sua utilização para um melhor bem-estar do paciente.

Contra, o fato de que, legalizada, poderia ter um efeito estimulador ao uso deliberado. A circunstância da legalização, associada ao fato de que, em nosso meio, o uso da maconha vem se mostrando culturalmente aceito, pode ter um efeito catalisador para o primeiro uso ou para o uso esporádico.

Amparado por lei, o usuário desfrutaria livremente dessa experiência. Nessa perspectiva, estar-se-iam aumentando as chances de o uso se tornar abuso, podendo ter consequências mais nefastas, entre elas, o caminho para drogas mais pesadas ou ainda a indesejável dependência.

Agora, para aqueles que fazem uso abusivo ou são dependentes químicos, a liberação em nada influenciaria, pois nesses casos o que importa são o preço e a disponibilidade da droga. Fica a questão: legalizar ou não?

Médico

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

INTERNAÇÕES SEM EFEITO




ZERO HORA 04 de agosto de 2014 | N° 17880

MARCELO GONZATTO


SAÚDE. Depois da alta, retorno ao crack

PESQUISA REALIZADA NO Rio Grande do Sul mostra que quase 90% dos adolescentes voltam a usar a droga nos três meses que se seguem a um período de tratamento, demonstrando a ineficácia do atual modelo de tratamento para dependentes



De cada 10 adolescentes internados pelo sistema público de saúde para combater o vício do crack no Rio Grande do Sul, em média nove voltam a usar a droga até três meses depois de receber alta.

Além disso, um terço necessita de uma nova internação, e outros 36% se envolvem com a prática de crimes nesse período, conforme um estudo apresentado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O trabalho indica que, apesar do investimento de R$ 1,4 bilhão apenas do governo federal para reforçar a rede de atendimento aos dependentes, o serviço não oferece a eficácia desejada.

Em sua tese de doutorado, a psicóloga e doutora em Ciências Médicas Rosemeri Siqueira Pedroso acompanhou dois grupos distintos de usuários de crack. Ao longo de três meses, observou o índice de recaída entre 88 adolescentes após a alta e monitorou um outro contingente, de 293 jovens e adultos, para determinar quantos precisaram de repetidas internações para combater a droga ao longo de três anos.

No grupo de adolescentes, 86,4% voltaram a usar crack em até três meses. Entre o grupo de adultos, 43,4% tiveram de se reinternar até cinco vezes ao longo de três anos.

Essas descobertas aprofundam o conhecimento sobre o tema no país. Os poucos trabalhos já realizados indicam que cerca de um terço dos usuários de crack consegue concluir o tratamento com sucesso. As pesquisas sobre esse tema são raras em razão da dificuldade de acompanhar um grande número de dependentes após a alta – muitos não têm telefone ou endereço fixo e perdem contato com os pesquisadores.

Por isso, o levantamento gaúcho oferece revelações importantes sobre o impacto do tratamento oferecido pela rede pública aos usuários.

FALTAM AÇÕES PARA AJUDAR NA ABSTINÊNCIA

A autora do trabalho considera que ficou “cientificamente comprovado” um número excessivo de reinternações no sistema de saúde, o que coloca em xeque a eficácia do modelo atual.

– Quando o usuário sai do hospital, muitas vezes não tem onde morar, volta para a boca de fumo, não tem trabalho ou um aparato psicossocial para ajudá-lo na abstinência. Isso ainda é precário no Brasil – avalia Rosemeri.

O psiquiatra Flavio Pechansky, orientador da tese, concorda com essa preocupação:

– Os dados mostram que, apesar dos milhões de reais gastos pelo poder público nessa área, os índices de recaída e reinternação são elevados.

Para realizar o estudo com os adolescentes, a psicóloga acompanhou a internação desses jovens no Hospital Psiquiátrico São Pedro e na Clínica São José, em Porto Alegre. Depois da alta, seguiu monitorando a situação de cada um dos pacientes por meio de visitas, telefonemas e informações de parentes.

Para medir o grau de reinternações dos adultos, a pesquisadora monitorou todas as vezes em que os participantes do estudo ingressaram em algum serviço de saúde psiquiátrica no Estado. Isso levou a outra constatação: poucos dependentes (13%) procuram os serviços ambulatoriais que deveriam desafogar as clínicas e instituições hospitalares destinadas à internação para desintoxicação.

Em resposta a questionamentos de ZH, o Ministério da Saúde divulgou uma nota listando investimentos recentes e melhorias na rede de atendimento aos usuários de drogas. O texto afirma que o governo federal aplicou R$ 1,5 bilhão na execução do plano de enfrentamento ao crack – R$ 1,4 bilhão deles destinados à ampliação dos serviços que atendem dependentes químicos pelo SUS.



Especialistas sugerem mudança de métodos


Especialistas no combate ao crack afirmam que os elevados índices de recaída e reinternação reforçam a necessidade de aprimorar o método de tratamento. Segundo eles, o sistema público oferece poucos leitos e períodos curtos de internação. Além disso, não consegue acompanhar o usuário após a alta.

Um dos problemas, para o psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel, são as “altas precoces”. Geralmente, a internação autorizada pelo SUS é inferior a um mês.

– O ideal é que o prazo dependa apenas da condição do paciente. O que se faz hoje é absurdo – afirma.

Coronel diz que, conforme os levantamentos realizados no país, cerca de um terço das mortes de usuários de crack têm como origem altas antecipadas. Outra dificuldade é a falta de leitos psiquiátricos – que já chegaram perto de 200 mil no país e hoje são 32 mil. Segundo relatório elaborado por sete entidades médicas, o Estado perdeu 36,7% dos leitos de psiquiatria entre 1993 e 2013.

Em consequência, dependentes como Solon Santos da Silva Filho, 37 anos, recorrem a sucessivas internações e lidam com uma frequente falta de vagas. Ele está em seu quinto tratamento desde 2010: já passou por três internações em clínicas pelo SUS e encontra-se na segunda temporada em uma comunidade terapêutica – a Acolher, de Gravataí. Nas clínicas, conseguiu ficar no máximo um mês, o que considera “muito pouco”. Também precisou superar obstáculos para garantir leito:

– Na minha segunda internação, tive de recorrer a uma ordem judicial para conseguir vaga. Não adiantou e recaí. Agora, já estou há oito meses e 10 dias na comunidade terapêutica – conta.

O presidente da Associação de Psiquiatria do Estado, Carlos Salgado, defende que é necessário investir em ações como medicina comunitária, que permitam acompanhar o dependente fora do hospital, aumentar a oferta de leitos e aprimorar o treinamento dos profissionais.



Solon, hoje em uma comunidade terapêutica, considerou muito curtas as suas internações, de apenas um mês

quarta-feira, 30 de julho de 2014

OCUPAÇÕES URBANAS VOLTAM À CENA NA GRANDE PORTO ALEGRE

ZH 30/07/2014 | 05h03

por Taís Seibt

Famílias se instalaram em pelo menos quatro áreas privadas da capital gaúcha em julho


Na antiga Avipal, na Zona Sul, centenas buscam abrigo, cansados de esperar por reassentamentoFoto: Diego Vara / Agencia RBS


Enquanto a Copa concentrava a atenção do país, centenas de famílias da Capital carregavam meia dúzia de pertences para tentar recomeçar a vida em outro lugar. Ao menos quatro áreas particulares foram ocupadas por sem-teto no começo de julho.

É destaque a velocidade com que a população das novas vilas se multiplica, mas os órgãos que acompanham as ações não identificaram atuação organizada de movimentos de luta por moradia nessas áreas, como ocorria décadas atrás. A nova leva viria de comunidades atingidas por obras ou enchentes, cansadas de esperar pelas promessas do poder público.


No caso de Lenemar Bastos, líder comunitário no bairro Cristal, a espera é por casa prevista no Projeto Integrado Socioambiental (Pisa), da prefeitura. Apesar de a construção do dique estar expulsando famílias da beira do Arroio Cavalhada e de a verba federal para as moradias ter sido aprovada em 2009, o reassentamento até agora não saiu. O Departamento Municipal de Habitação (Demhab) diz aguardar aprovação dos projetos pela Caixa. Saíram de lá as primeiras 200 famílias da chamada Ocupação Avipal, na Zona Sul, uma das maiores da Capital.


A vendedora autônoma Aline Coelho não consegue firmar contrato de locação, pois não tem renda fixa. Foto: Ronaldo Bernardi, Agência RBS

Em poucos dias, a população no terreno hoje pertencente à construtora Melnick Even quadruplicou, com a chegada de pessoas como a vendedora autônoma Aline Coelho, 30 anos. Despejada da casa que alugava, ela tem dificuldade para firmar novos contratos de locação, já que não tem comprovante de renda fixa – situação parecida com a de Vanderlei de Almeida, 27 anos, afastado do trabalho como gesseiro por problemas de saúde. Com pendências de crédito, é difícil para ele usufruir de programas como aluguel social.

Reintegração de posse foi suspensa

O número de ocupações recentes é difícil de determinar, especialmente por estarem em áreas privadas. Uma, no bairro Hípica, teve reintegração de posse iniciada nesta terça-feira, mas foi cancelada, segundo a Brigada Militar, porque o proprietário não ofereceu meios para retirar as casas do local. O terreno está em nome de Hele Nice Bernardes Petkov. Representantes da família alegam que foram disponibilizados seis caminhões, mas houve atraso de meia hora na chegada dos veículos, e a BM não quis esperar. A família insistirá na reintegração.

Nos casos envolvendo imóveis particulares, a intervenção do poder público é limitada. Estado e município só entram em diálogo com as comunidades se procurados por representantes. A Defensoria Pública entra como mediadora do conflito. Muitas vezes, é a partir dessa negociação que as demandas das comunidades chegam ao Estado, que oferece como alternativa os programas habitacionais existentes. Ainda assim, há casos como os de Aline e Vanderlei, que ficam sem solução.

Ocupação ou invasão

ZH optou pelo termo ocupação, e não invasão, para caracterizar o fenômeno urbano descrito nesta reportagem porque a palavra ocupação é mais aceita para descrever o ato de instalar moradia, ainda que de forma irregular, em imóvel sem uso pelo proprietário.

Já o termo invasão costuma ser atribuído a casos em que há conflito para dominação à força de um território, o que não ocorreu nos casos aqui abordados.


Família Toledo vive em prédio ocupado e tem dificuldade de bancar mudança. Foto: Ronaldo Bernardi, Agência RBS

Movimento comemora desapropriação no Centro

Um edifício de sete andares com vista para o Guaíba poderá finalmente ser destinado a sua função original e virar moradia social para cerca de 40 famílias. É o que prevê o decreto assinado neste mês pelo governo do Estado.

Construído com recursos do extinto Banco Nacional de Habitação, o prédio acabou sendo repassado à Caixa Econômica Federal e foi esvaziado nos anos 1990. Desde 2005, foi ocupado pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) quatro vezes. A última, em agosto passado, ficou conhecida como Ocupação Saraí.

– Para nós, é uma vitória – comemora o coordenador nacional do MNLM, Beto Aguiar.

Das 24 famílias que residiam no local, quase a metade já deixou o prédio graças ao aluguel social. Alguns ainda não sabem para onde ir, como o operário da construção civil Lauro da Paz Toledo, 54 anos, que vive com a mulher e cinco filhos. A maior dificuldade é encontrar imóvel no valor do benefício (R$ 500, no máximo) perto da escola das crianças.

– A lógica da casa como mercadoria afasta essas pessoas dos centros urbanos – critica a coordenadora do MNLM em Porto Alegre, Ceriniani Vargas.

Em São Paulo, a ação do movimento motivou a prefeitura a analisar a desapropriação de 41 edifícios da região central para moradia social. Em Porto Alegre, o Saraí ainda é um caso isolado. A política não está nos planos do Demhab nem do governo do Estado.

– A continuidade de iniciativas semelhantes dependerá da avaliação futura do projeto em curso – diz o secretário estadual de Habitação, Marcel Frison.

Outros três edifícios conquistados pelo MNLM na área central de Porto Alegre estão em processo de regularização. São prédios de órgãos federais.

48 mil é o número de domicílios vagos em Porto Alegre, segundo o IBGE

35 mil é o déficit habitacional na Capital, segundo o Demhab

R$ 29,9 milhões foi o valor investido pelo Estado, desde 2011, como complementação de convênios firmados com cooperativas habitacionais

14 mil é o número de unidades habitacionais construídas com esses recursos

Número de ocupações

Bairros de Porto Alegre
Partenon - 8
Sarandi - 4
Cristal - 2
Santa Tereza - 2
Outros - 11

Região Metropolitana
Gravataí - 5
Eldorado do Sul - 4
Canoas - 3
Sapucaia do Sul - 2
Cachoeirinha - 1


ENTREVISTA

BEATRIZ TAMASO MIOTO

"Há uma periferização sem precedentes", diz especialista

Doutoranda pela Unicamp, a economista Beatriz Tamaso Mioto está na Universidade de Nova York para complementar seus estudos sobre desenvolvimento econômico e políticas habitacionais na América Latina. Por e-mail, falou com ZH.

O governo do Rio Grande do Sul anunciou a desapropriação de um prédio para garantir moradia social. É uma boa alternativa?
A desapropriação é mais que uma alternativa. É um instrumento legal e democrático que poderia garantir diversos direitos aos cidadãos e melhorar as condições de vida na cidade. A diminuição da dicotomia entre periferia e bairros de classe média e da desigualdade de acesso à moradia mitigaria dois grandes problemas urbanos: violência e mobilidade.

Há outros efeitos da política de desapropriação?
Melhores condições de habitação, principalmente em áreas mais bem localizadas, significam melhores oportunidades de emprego, educação, assistência social e serviços públicos em geral. A aproximação entre moradia e trabalho inibe a utilização de transportes individuais e reduz o tempo de deslocamento.

Qual a principal dificuldade desse processo?
A principal dificuldade é política. A terra no Brasil sempre foi uma forma segura e fácil de valorizar o patrimônio e manter a dominação política. A segunda é na esfera jurídica, de execução dos mecanismos do IPTU progressivo e da desapropriação. Do ponto de vista econômico, o que se reclama é do valor pago pela desapropriação. Outro ponto importante é de natureza orçamentária dos municípios.

Você tem estudado a questão em outras metrópoles da América Latina. Os desafios são semelhantes?
O patrimonialismo em relação à terra, a imensa desigualdade e a segregação socioespacial são traços comuns. Essas metrópoles também se parecem no que se refere às restrições orçamentárias, à destinação de parte relevante das receitas do governo para pagamento de dívidas e em relação aos problemas sociais nas cidades e seu planejamento.

E as políticas habitacionais na América Latina também têm aspectos semelhantes?
Salvo poucas exceções, essas políticas têm seguido as determinações dos organismos internacionais, como o Banco Mundial. Esses organismos pregam como solução a expansão do crédito e de subsídios para que as famílias acessem o mercado imobiliário. No Brasil, isso tem levado, em diversas metrópoles, a uma periferização sem precedentes.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

JORNAL DEFENDE A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA NOS EUA




ZH 28 de julho de 2014 | N° 17873


DEU NO NEW YORK TIMES. Jornal reflete mudança nos EUA e defende legalização da maconha. 
NO PRIMEIRO DE uma série de editoriais, um dos diários mais respeitados do mundo solicita que o governo americano revogue a proibição da droga para fins medicinais e recreativos em todo o país


Uma das mais prestigiosas publicações do mundo assumiu sua posição na briga pela legalização da maconha nos Estados Unidos. Com uma série de seis editoriais que começou a ser publicada ontem em sua versão impressa, o jornal The New York Times pediu que o governo federal autorize o uso da droga – um importante marco no debate nacional sobre o tema. O jornal se torna o maior do país a assumir tal posição. “O governo federal deve revogar a proibição à maconha”, crava o editorial. A atitude reflete uma mudança de opinião que vem se processando na sociedade americana ao longo das últimas décadas – em 1991, 78% dos cidadãos eram contrários à legalização. Em 2014, 54% a defendem. Dois Estados permitem o uso medicinal e recreativo: Washington e Colorado.

TRÊS QUARTOS DOS ESTADOS JÁ ADOTARAM MUDANÇAS

O Times reconhece que “não há respostas perfeitas às preocupações legítimas da população sobre o uso da maconha”. “Mas também não há essas respostas sobre o tabaco ou o álcool, e nós acreditamos que, em todos os aspectos – efeitos para a saúde, impacto na sociedade e temas de ordem pública – a balança pende para o lado da legalização nacional”, defende o jornal. Com isso, o Times observa, as decisões sobre permitir a produção e o uso para fins medicinais ou recreativos se darão no nível correto: o estadual.

Segundo o texto, a posição do jornal foi tomada “depois de uma grande discussão entre os membros do conselho editorial do Times, inspirado num movimento que vem se expandindo rapidamente entre os Estados por reformas das leis sobre maconha”.

Quase três quartos dos 50 Estados americanos (34 e mais o Distrito de Columbia) já adotaram alguma mudança sobre o uso e a produção. O mais recente foi Nova York, que liberou, no último mês, a produção e o uso medicinal sob estritas regras.

Para o Times, as evidências de que a dependência é um problema relativamente menor, especialmente se comparado ao álcool e ao tabaco, são “esmagadoras”. O jornal chama de “fantasiosos” os argumentos de que a maconha é uma porta de entrada para drogas mais perigosas. “O uso moderado da maconha não parece colocar em risco adultos saudáveis”, afirma o jornal, que destaca defender a proibição do uso para menores de 21 anos.

O Times compara a proibição federal da maconha com os 13 anos da Lei Seca nos EUA (1920-1933), em que os “as pessoas continuaram bebendo” e a criminalidade cresceu. “Foram 13 anos até que os EUA caíssem em si e acabassem com a Lei Seca. (...) Já são mais de 40 anos, desde que o Congresso aprovou a proibição da maconha, prejudicando a sociedade ao proibir uma substância tão menos perigosa que o álcool.”



Lei desperta a rejeição de 64% dos uruguaios

Discussões acaloradas sobre a legalização da maconha seguem em curso em outras partes do mundo. No Uruguai, que em 2013 aprovou uma lei que permite o consumo, a venda e a produção de maconha, uma pesquisa divulgada na quarta-feira passada mostra que o assunto segue enfrentando forte resistência da população.

De acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Cifra, 64% dos uruguaios são contra a lei. O índice é pouco inferior, apenas dois pontos percentuais, ao resultado obtido em pesquisa de 2012, quando 66% das pessoas disseram se opor à medida. A sondagem atual também revela que 27% dos habitantes do país vizinho ao Brasil se declaram a favor da lei. A comercialização da droga deve começar no final deste ano.